Defensoria Pública de Minas Gerais

Igualdade e cidadania para todos


Projeto da Defensoria Pública de Minas Gerais é instrumento de prevenção e combate ao bullying


Por Ascom em 5 de abril de 2019

Neste domingo (7/4) é celebrado o Dia Nacional de Combate ao Bullying e à Violência na Escola. Programa de mediação transforma agressão em respeito e ajuda alunos a dar a volta por cima

O bullying acontece de forma velada e com grande poder destrutivo, pois fere a “área mais preciosa, íntima e inviolável do ser – a alma”*. Atenta ao problema, desde 2012, a Defensoria mineira desenvolve o projeto Mediação de Conflitos no Ambiente Escolar (Mesc) em escolas estaduais

“O Mesc sempre foi um refúgio para mim. Transformou a minha vida para sempre”. Quem fala é Danielle Pereira da Silva, ex-aluna de uma escola da Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH) e voluntária do projeto há sete anos.

Danielle, que sofria bullying moderado, buscou o Mesc após um episódio de perda de forma violenta de um familiar. Ela conta que sua dor a fez procurar por algo que combatesse a violência.

“No Mesc, eu me encontrei. O projeto me transformou, mudou a maneira como eu lido com as pessoas e como me coloco no mundo”, diz ela. Quando a estudante e o agressor encontraram-se no Mesc, o preconceito e a violência deram lugar ao respeito e à empatia.

Danielle Pereira da Silva

Crianças e adolescentes vítimas de bullying encontram na escola o ambiente mais hostil, onde a prática desse tipo de violência é reforçada. A conclusão é de um estudo realizado em 2018 pelo Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância).

O Dia Nacional de Combate ao Bullying, celebrado em 7 de abril, busca conscientizar sobre a prática, cuja ação maléfica pode provocar enormes traumas aos envolvidos, causando doenças psicossomáticas, transtornos mentais e psicopatologias graves, além de estimular a delinquência e o abuso de drogas.

O relatório do Unicef – An Everyday Lesson: #ENDviolence in Schools que, em tradução livre para o português significa “Uma lição diária: Pelo fim da violência nas escolas”, – afirma que a violência entre colegas ocupa um papel dominante na educação de jovens em todo o mundo. A agressão sofrida no ambiente escolar, física ou psicológica, tem impacto na aprendizagem e no bem-estar dos estudantes, independentemente de residirem em países pobres ou ricos.

No Brasil, um em cada dez estudantes brasileiros é vítima de bullying. O dado foi divulgado em abril de 2017 pelo Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa). Quando se trata de cyberbullying, o país tem o segundo maior índice de pais e mães que dizem que seus filhos já foram vítimas de bullying na internet.

Realizada em 2018 pelo Instituto Ipsos, a pesquisa constatou que o Brasil, em que 29% dos entrevistados relataram problemas de violência virtual, só fica atrás da Índia, que tem índice de 37%.

Mesc – Paz em Ação

Há sete anos, a Defensoria Pública de Minas Gerais (DPMG) lançou o projeto Mediação de Conflitos no Ambiente Escolar (Mesc). Com o slogan “Paz em Ação”, a iniciativa utiliza da técnica da mediação para administrar situações de conflitos e criar alternativas para melhoria da convivência em grupo, maximizando os ganhos para a escola, empoderando seus atores e gerando autonomia. Sua metodologia fornece instrumentos e mecanismos para que a escola construa o seu próprio processo de mediação.

Um termo de cooperação técnica celebrado entre a Defensoria Pública de Minas Gerais e a Secretaria de Estado de Educação (SEE/MG) possibilita que o Mesc esteja presente em escolas de Belo Horizonte e Região Metropolitana, com resultados efetivos na melhoria do ambiente escolar e na redução dos casos de bullying.

Solidão

Luzia sofreu bullying contumaz na escola por cinco anos. Com problemas em casa e sem ter em quem se apoiar ou pedir ajuda, descontava em si mesma. “Sentia-me solitária, até que encontrei o Mesc”, relata.

A estudante já estava fazendo o curso do projeto quando o agressor se juntou ao grupo. Esteve a ponto de abandonar a capacitação.  “Não queria ficar no mesmo ambiente que uma pessoa que fazia tão mal para mim”, conta.

Luzia conta que o apoio da coordenadora do Mesc, defensora pública Francis Coutinho, foi fundamental e ela decidiu permanecer. A situação dos dois acabou virando uma prática com os envolvidos em uma das sessões de mediação.

“O Mesc trouxe o diálogo, aplicamos a técnica e conseguimos chegar a um consenso. Descobri que ele também sofria bullying e me agredir foi a forma que encontrou de se defender do seu sentimento de inferioridade, conta Luzia. O Mesc foi libertador para ambos. O estudante parou de cometer a agressão. 

A coordenadora do Mesc, defensora Francis Coutinho, explica que os três pontos base do posicionamento e técnica do projeto na abordagem aos autores de bullying são: mediação, escuta empática e convivência harmônica e democrática. “A escuta deve ser realizada de forma não punitiva, não estigmatizante e não estereotipada”.

Professora há 24 anos, Cida Flaviana de Lima explica que, pela própria área de vulnerabilidade social em que a escola estadual em que trabalha está situada, “as pessoas estão acostumadas a resolver os problemas na briga”. Segundo ela, quando o diretor conheceu o Mesc, a escola passava por um momento delicado, com uma realidade de muita violência.

“Até então, as coisas aconteciam e não dava para vislumbrar a possibilidade de melhora. Com o projeto começamos a lidar com o conflito com uma visão mais científica. O bullying, até então comum, passou a ser mais eventual e mais leve. As diferenças são muito mais respeitadas hoje e os alunos estão muito mais interessados em ajudar do que em atacar”, afirma Cida.

Espiral do conflito

A defensora pública Francis Coutinho ressalta a importância de identificar a origem do problema. “Já tivemos casos de históricos de violência anterior aos autores de bullying (familiar ou não) e a não abordagem ou reflexão sobre o conflito gerador da violência posta pode avançar na espiral de conflito, causando uma situação de descontrole na escola, envolvendo, muitas vezes, outros alunos como atores. Assim, é de suma importância tratar o tema de forma aberta, conversando sobre os sentimentos e necessidades envolvidos”.

Divisor de águas

Durante praticamente toda a sua vida estudantil, Lucas sofreu bullying. Homossexual, o estudante sempre sofreu com o preconceito e a discriminação de colegas e conta que tristeza profunda e não aceitação o acompanharam até os 16 anos. “O Mesc foi um divisor de águas para mim. Impactou minha vida e a dos que agrediam”, conta.

Lucas explica que, além da escuta e do diálogo, o projeto trabalha os direitos humanos e as aulas trazem senso de humanidade e empatia, fundamentais para se romper o ciclo da violência. “Ao longo do curso do Mesc, os alunos refletiram muito sobre suas atitudes e mudaram de postura radicalmente, influenciando outros alunos a também pararem de praticar o bullying”, diz ele.

“A minha capacitação do Mesc terminou, mas as defesas ficaram. Hoje, me sinto muito mais segura e à vontade. A questão do ouvir, entender, da empatia acontece de forma permanente e natural para mim agora”, relata Luzia.  A estudante, que está se formando em Moda e já trabalha na área, aplica as técnicas aprendidas também na sua vida profissional.

Mesc: no caminho certo

Com a última renovação do TCT com a SEE, em 2018, está sendo iniciada a fase avançada de mediação e formação de mediadores entre alunos, professores e funcionários em uma escola também da RMBH. 

Além do Mesc, estão atuando em parceria dois outros projetos – o “MEN – Machismo entre nós”, que traz a discussão e reflexão entre os próprios homens sobre a cultura machista; e o “Empodera Teen”, que trabalha o protagonismo entre jovens alunas nas escolas. Os projetos são iniciativa do estudante de Direito Gustavo Ribeiro e da educadora Graziane Andrade, respectivamente.

O Projeto Mesc recebeu menção honrosa na edição de 2015 do Prêmio Innovare, ganhou o Prêmio Mineiro de Direitos Humanos em 2016, na Categoria de Solução de Conflitos Coletivos através da Mediação, por sua atuação à época das ocupações escolares.

O Mesc já foi citado em colóquios nacionais e internacionais. Recentemente, pesquisa com escolas que trabalham a mediação em Minas Gerais e São Paulo, realizada pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) para criação de indicadores para balizamento de trabalhos de redução da violência escolar, avaliou o Mesc de forma amplamente positiva.

* A afirmação é da pedagoga, doutora em Educação, pesquisadora de renome nacional e internacional no tema, professora Cléo Fante.

Fonte: Assessoria de Comunicação da Defensoria Pública do Estado de Minas Gerais  (05/04/2019)



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